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POR HENRIQUE AUTRAN DOURADO


Pela minha janela, observo um jovem casal que constrói
uma casa, tudo indica que autossustentável, uma ideia que tem vingado com
economia e contribuído para o meio ambiente. Nunca entrei lá, mas há alguma
coisa como uma cisterna para recolhimento de água da chuva. A construção
também possui ampla acessibilidade, o que só descobri há uns poucos dias.
Volta e meia, um deles subia uma escada tosca, molhando sei-lá-o-quê
(poeira?) sobre a laje. Meus filhos, um dia, perguntaram: “Mas o que é que
eles tanto regam?” Eu achei a pergunta engraçada e respondi, brincando, que
talvez fosse para fazer crescer mais um andar.

Falo da casa da professora Maria Angélica Alves de
Oliveira, cujo Celta ardeu na região de Piracicaba, carbonizando em seu
interior um corpo, da forma mais cruel. No porta-malas, uma cadeira de rodas.
Eu estava em Campos de Jordão e a notícia foi um choque enorme, pois, mesmo
sem conhecer Angélica pessoalmente, havia a proximidade de (futura) vizinha,
além do fato de ela ser professora da Fatec, onde proferi, no dia 2, aula
inaugural do novo curso de produção fonográfica, criado em parceria com o
Conservatório (com grande orgulho, iniciamos, em Tatuí, sob a liderança do
doutor Mauro Tomazela, um curso superior público sem igual no país, de cuja
importância o Brasil somente vai se dar conta daqui a alguns anos). Mas, em
contraste com o júbilo, ali na faculdade, pairava a dor da perda, e, para um
ou outro, a dúvida: enquanto houver chance, ínfima que seja, aguardam com fé.
Quando você estiver lendo este jornal, terá surgido alguma resposta, talvez a
solução para o caso. Ou um milagre.

Na aula magna, abordei o tema daquela casa do ponto de
vista da tecnologia do meio ambiente, chegando à crise de segurança, antes do
assunto musical propriamente dito. No aniversário de Tatuí, as emoções
cidadãs transbordando em festa, o momento é perfeito para refletirmos sobre a
escalada do crime, pensar novos caminhos e ideias. Sou assíduo devorador de
jornais, eleitor e residente na cidade, e agradeço o espaço de “O Progresso”
para comentar o caso; que em 2011, Tatuí comemore uma outra construção, que
precisamos começar a erguer: autoridades, políticos, sociedade civil, igrejas
e organizações.

Em 1968, pico da ditadura, o estudante Edson Luís fora
assassinado no restaurante Calabouço, do Rio, durante a mais cruel repressão
que o país já viu. O cortejo fúnebre seguiu em passeata de milhares, cercada
por “soldados armados” sobre garbosos cavalos; nas cintas, aqueles cassetetes
de madeira de quase metro, apelidados “mec-usaid-e-abuseid” – um deboche
contra o acordo MEC-Usaid, sigla que, sob a égide da ajuda aos países
subdesenvolvidos, acobertava alianças de bastidores dos EUA com as ditaduras
latinas. Durante o longo trajeto, a estudantada gritava sem parar: “Mataram
uma criança, podia ser seu filho!”.

Talvez tenham matado uma moça, podia ser sua filha! Ou
sua esposa. A Prefeitura tem envidado todos os esforços possíveis para que a
Guarda Municipal possa suprir a falta de pessoal dos contingentes militar e
civil. Aumento de efetivo da GM, viaturas, novo pessoal concursado e
treinado, a corporação extrapolando suas funções – mas, não fosse por isso
mesmo, seria uma Maria Angélica por mês; não existindo a Guarda, uma por dia.
Há ruas para asfaltar, há educação, saúde pública, e não é possível canalizar
ainda mais recursos para apenas uma área – justamente aquela que é dever
constitucional do Estado (que, por sua vez, tem mais de 600 municípios e uma
capital dominada pelo crime para distribuir seu efetivo).

Os industriais, comerciantes, investidores e a sociedade
civil de Tatuí têm que se organizar, para que, já na comemoração deste ano,
surja uma proposta de ação firme e solidária pelo bem comum: a segurança de
todos. União que seria, com certeza, o maior presente que poderíamos dar à
cidade que nos abraça com tanta música e ternura. Lancemos desde já o repto
por esse desafio, pois as mais profundas manifestações de solidariedade
humana são despertadas pelo sofrimento. E mesmo se sobrevier o milagre,
Angélica, “quando essas nuvens vão desaparecer”? Parabéns, Tatuí, haveremos
de lhe dar esse presente!

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Violinofone

Publicado: 28 de setembro de 2009 em Música

SER TATUIANO

Publicado: 10 de agosto de 2009 em Música

POR HENRIQUE AUTRAN DOURADO

Ser tatuiano

Ser tatuiano é amar música, teatro e luteria, é ser cidadão da Capital da Música. É tocar trompete debaixo da janela do diretor, é carregar a tuba na bicicleta, contramão da São Bento. É dizer bom-dia até para poste, abrir a porta para as senhoras e idosos, é enrolar o “r” com orgulho, é rimar arraiá com casá, conversar com desconhecido, é cornetar. Ser tatuiano é frequentar o Conservatório, dizer de boca cheia que é o maior da América Latina, e que seu fio, seu véio e sua patroa lá estudaram. É saber diferenciar uma viola de arame de uma viola sinfônica. Enfim, é ter música no sangue, poderoso antígeno contra vírus de todos os tipos, dos espanhóis aos do mau humor.

Ser tatuiano é vir de mala e cuia de São Paulo, Minas, Cuiabá, Peru, Paraguai, Itapetininga e adjacências, é sujar a botina de elástico de barro vermeio, é pitar cigarro de páia, uns bons minutos para bem prepará-lo. É gostar da pinga dos Ramos, do pão-de-queijo do Café Canção, do relógio da São Martinho, do pesqueiro do Doc, do Abud do Colina, do bar da Lena, do dog do Gordo, do Paulinho, do Caipirinha e do Caipirão do Arnaldo, do enorme shopping center livre da XI, é ficar vendo a estátua do Del Fiol “tocar” na praça da Matriz, é trombar com vereador no supermercado, com o Guarda Civil na banca de jornais, com o delegado no concerto.

E a tatuiana? Ser tatuiana é usar salto alto, calça preta e apear da Honda Bizz, tirar o capacete cor-de-rosa desarrumando os cabelos, é ser educada, é ser dona de casa, professora do “Barão”, do Anglo ou do Objetivo, é ser aluna da Etec ou da Fatec, é chorar de alegria, é sorrir de nostalgia, como dizia Noel, é usar calça jeans com brocado de prata nos bolsos de trás, é pranchar o cabelo ou fazer escova sempre que possível, é fazer social no Conservatório, é dançar bolero ao som da Big-band no Coreto, é aplaudir o Jazz Combo, o Coro, os Grupos de Choro e de Percussão e achar tudo fashion. Ser tatuiana é a coisa mais linda, mais cheia de graça, menina que vem e que passa, mais que um poema num doce balanço a caminho do lar. Ser Maria sem eira nem beira, Maria somente, Maria semente de samba e de dor, é ser Maria José ou Cristina Siqueira.

Ser tatuiano é madrugar no banco da praça da Matriz e contar do sordado marvado que mandô pórva no bandido, é ler “assombrações caipiras” e acreditar nelas, é ser teen e ir no Uainá, no Clube XI, jogar no RealMatismo, é fazer festa no República, comer pastel no Tambelli, dividir por quatro uma parmeggiana no Doca’s, é fazer rabada, leitão à pururuca ou assar linguiça na calçada, é prosear com o cumpadi na soleira da porta, é contar do peixão que (não) fisgou no Pantanal, e, óbvio, evidente, encher a boca para falar do sucesso da Lyra em Serra Negra ou em Bayreuth, na Alemanha.

Enfim, ser tatuiano é só ver telejornal da região na TV TEM ou no SBT, é saber, como dizia o Gil, que “a bomba explode lá fora, aqui o que vou temer…”, é gostar da música de raiz, de seresta e da Sinfônica – que são duas, banda e orquestra! -, é ter orgulho da água pura da Sabesp, do desemprego que caiu. É saber (saravá, Vinicius) que os namorados caminham de mãos entrelaçadas, e que os maridos funcionam regularmente, porque hoje é sábado. Parabéns, Tatuí!